Archive | agosto 2012

Ipupiara e o Coronel Militão

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Entrevista para o Blog Policultural

Carlos Araújo

 

 

Policultural – Síntese do seu currículo – participações – (no que se refere à cultura)

Carlos Araújo – De Ipupiara (antigo Fundão ou Jordão), Bahia, nasci em 22.06.1947, fui alfabetizado na Escola Batista de Ipupiara. Em l963, com 16 anos de idade, mudei-me para Ibotirama, nas barrancas do Velho Chico. Formei-me contador. Mediante Concurso Público, tornei-me funcionário do Banco do Brasil, tendo tomado posse na cidade de Pedreiras, no Maranhão, em 1973. Fui professor do ensino médio e do primeiro grau, estando hoje aposentado. Fui um dos criadores do FEMPI – Festival de Música Popular de Ibotirama que, em 2010, completa 34 anos de existência. Sou membro fundador e primeiro presidente da Associação e Colégio de Cultura e Arte de Ibotirama – ACCARI.  Fui um dos criadores e participei também de entidades culturais pioneiras em Ibotirama, como o conjunto musital “Lá Vai Samba”; o Curso Preparatório “Araujo Ribeiro”; a Escola de Datilografia “Araujo Barreto” e a ACRI – Associação Cultural e Recreativa de Ibotirama.

Em parceria com Lamartine Araujo, meu irmão, publiquei o livro IBOTIRAMA CAPITAL CÉU (2002); lancei IBOTIRAMA E AS CANÇÔES DE AGOSTO (2003), em parceria com Edson Ferreira e Edvaldo Pereira, com o patrocínio da Secretaria da Cultura do Estado da Bahia; “Milagre na Chapada-Romanceiro da Chapada Diamantina”, romance, São Paulo, Editora Scortecci, 2005. “O Dono do Santo da Chapada”, romance, São Paulo, Editora Scortecci, 2007 e “O Profeta do Jordão”, romance, São Paulo, Editora Scortecci, 2009.

Policultural – O festival de música de Ibotirama ganhou repercussão nacional e hoje atrai artistas de diversas regiões do Brasil, mas pouca gente sabe como tudo começou. Você poderia fazer uma síntese do primeiro festival, os principais destaques para a época?

Carlos Araújo – Segundo Manoel de Barros “O olho vê, a lembrança revê e a imaginação transvê. É preciso transver o mundo.”

Hoje, ao fazer uma reflexão sobre o evento, com base apenas na minha memória, fico convencido de que o FEMPI foi uma iniciativa que nasceu naturalmente. E concluo que vários fatores convergiram para a realização da primeira edição do festival:

1 – Os anos 60 e 70 foram de profusão de festivais de música Brasil afora, com destaque, principalmente, aos televisivos;

2 – Em 1967, um jovem de Bom Jesus da Lapa chamado Gutemberg Guarabira abiscoitou o primeiro lugar no II FIC – Festival Internacional da Canção da Rede Globo, com a música MARGARIDA, e isso repercutiu sobremaneira em toda região, no meio estudantil;

3 – Fervilhavam as atividades culturais no Grêmio do Colégio Cenecista de Ibotirama;

4 – Já se ouviam as primeiras composições musicais de Sílvio Araujo;

5 – Surgiu em nossa Terra o conjunto “Lá Vai Samba”;

6- Na década de 70, Washington Coutinho já havia participado de festivais em Santos e, de volta a Ibotirama, em 1976, incentivado por seu irmão, Idálito Coutinho, diretor do Colégio Cenecista, esboçou então a criação de um festival interno, o que não foi concretizado. Mas, muitas músicas foram compostas pelos estudantes naquela quadra;

7 – Em consonância com a Prefeitura, foi nesse contexto que, em 1977, se criou uma comissão chamada COF – Comissão Organizadora dos Festejos, para organizar uma Semana da Cultura, para o fim de se comemorar o 19º Aniversário de Ibotirama. E dentro desse projeto, o FEMPI foi inserido.

Policultural – Nesse festival, participaram quantos artistas de outras cidades?

Carlos Araújo – Os concorrentes eram todos compositores de Ibotirama, a exemplo de Natanael Coelho, Juvenal Neves, Silvio Araujo, Lamartine Araujo, Carlos Barbosa, Juarez Paulo, Washington Coutinho, Reginaldo Belo, entre outros.

Policultural – Esse primeiro festival já começou com alguma rivalidade entre grupos ou eles não tinham a noção exata disso tudo?

Carlos Araújo – Havia o que nós poderíamos chamar de rivalidade sadia. Não sei por que, mas aquela “competição” me remetia às rixas antigas entre os meninos da Rua de Baixo com os meninos da Rua de Cima. É tanto que, mesmo sendo eu jurado do FEMPI e tendo dois irmãos em um dos grupos rivais (Silvio Araujo e Lamartine), não se registrava nenhum tipo de reclamação.

Policultural – Os artistas participantes vieram de algum movimento cultural? Havia incentivo das escolas, grupo de teatro ou foram surgindo esporadicamente?

Carlos Araújo – Não havia um movimento cultural organizado. Entretanto, não se podia negar o trabalho artístico/cultural desenvolvido dentro do Colégio Cenecista de Ibotirama, através do Grêmio, com a coordenação do professor Edvaldo Pereira. De lá surgiram muitos concorrentes do I FEMPI. Bem assim do grupo teatral liderado por Aliomar Pereira e do conjunto “Lá Vai Samba”.

Policultural – Qual foi sua participação nesse evento? Quais nomes poderíamos colocar como idealizadores daquele festival?

Carlos Araújo – Podemos dizer que todos nós éramos “homens de sete instrumentos”. No meu caso, sendo eu bancário, ficava incumbido de cuidar da parte burocrática: regulamento, fichas de inscrição, computação das notas, etc… etc… etc.. Nem os próprios concorrentes ficavam de fora na hora do trabalho pesado. Arrumação de cadeiras, palco e instrumentos musicais. Todos pegavam no batente.

Cito algumas pessoas que eram membros da COF – Comissão Organizadora dos Festejos: Aliomar Pereira, Carlos Araujo, Edvaldo Pereira, Nilmar Moreira da Silva, Edson Alves Ferreira, Carlos Barbosa, Washington Coutinho, Juarez Paulo Alves Pereira, Carlos Pereira, Lélia Gomes de Santana, Edson Quinteiro(como prefeito), entre outros.

Creio que muitos  idealizadores do FEMPI não estão fora dos aqui citados.

Policultural – Se o festival nasceu, quem você diria que foi o pai biológico?

Carlos Araújo – Fica praticamente impossível se nomear o dono da idéia de se criar o FEMPI. Que eu saiba, não existe nenhum registro para se comprovar isso. Prefiro me apegar ao dito de que “uma idéia sem ação não é nada”, e reverenciar os nomes dos “realizadores” do festival, já citados.

Policultural – Como você diferencia aquele festival dos que acontecem hoje?

Carlos Araújo – Eu vejo o festival de música como uma grande “mostra” da cultura musical de um povo. Nesse sentido, o FEMPI é um fim e não um meio. O primeiro festival foi uma “mostra” das músicas que se fazia em nossa terra. Portanto, um festival “de Ibotirama”. Hoje apenas cedemos o PALCO para a realização do evento.

Policultural – Qual sua opinião sobre as críticas de não termos mais um festival DE Ibotirama, e sim um festival EM Ibotirama?

Carlos Araújo – Eu fui um dos primeiros a cunhar a expressão: “festival EM Ibotirama”. No início, eu era apenas uma voz solitária a bradar sem eco. Volto a insistir: Nossa Cidade está apenas cedendo o palco para a realização do evento, com os dividendos políticos indo diretamente para as classes dirigentes.

Policultural – Por que Ibotirama não teve uma renovação de nomes na área artística como era esperado? Onde erramos?

Carlos Araújo – Para começar, eu recorro desta feita ao dito de Confúcio: “Se queres prever o futuro, estuda o passado”. Hoje eu revejo, com tranqüilidade, a minha posição de 2003. Como primeiro argumento registro a seguir as músicas que eram tocadas no rádio e que os jovens ouviam, entre os anos de 1977 e 1978: Cálice, Não Existe Pecado ao Sul do Equador, Folhetim, Homenagem ao Malandro (todas de Chico Buarque); Sampa, Terra, Força Estranha (todas de Caetano Veloso); Sossego, de Tim Maia; Bandeira do Divino, de Ivan Lins. Aí eu pergunto: Quais são os ídolos dos jovens, nesse início de século XXI?

Hoje estou mais do que convencido de que a arte só reflete o momento histórico. Mesmo que realizássemos um trabalho esmerado no sentido da renovação de valores, não mudaríamos o cenário musical que aí está.

Policultural – Qual a relevância destes festivais, e suas participações, no trabalho que você desenvolve hoje como escritor?

Carlos Araújo – É de minha natureza estar sempre empenhado nas questões culturais do lugar onde vivo. Portanto, se o FEMPI não me tivesse trazido outras compensações, pelo menos serviu de motivação para dar  o pontapé inicial na carreira deste modesto escrevinhador, com a parceria no livro Ibotirama e as Canções de Agosto.

Policultural – Você acha que o ofício, especificamente de bancário, estava ocultando o artista aí dentro, ou você apenas o guardava, de propósito, para o momento oportuno?

Carlos Araújo – Mergulhei de cabeça no mundo encantado da literatura, desde o momento em que comecei a minha vida escolar. Conheci o Brasil inteiro convivendo com os personagens de Machado de Assis, Aluízio Azevedo, Lima Barreto, Manuel Antonio de Almeida, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Augusto dos Anjos, Érico Veríssimo, Patativa do Assaré, José Lins do Rego, Catulo da Paixão Cearense, entre outros. Visitei o mundo com Emily Brontë, Dostoievski, Eça de Queiroz, Henry Miller e Gustave Flaubert. Fui ao fundo dos mares com Ernest Hemingway e Júlio Verne. Aí fiquei maravilhado ao perceber que fiz tudo isso sem precisar sair da pequena cidade de Ipupiara, onde nasci e de Ibotirama, onde passei a morar depois dos dezesseis anos de idade. Tornei-me, então, um leitor contumaz e estava a um passo de ser mais um escrevinhador. Aquele universo me era familiar.

Mas, só muito mais tarde, depois de aposentado, é que fui convencido, por conhecidos e amigos, de que tinha alguma habilidade (dom) para a escrita ao receber elogios, em “fortuna crítica”, pelos livros que escrevi e apresentei a eles para análise.

Policultural – Você foi um dos autores de um livro sobre os festivais. Há muitas críticas no tocante à fidedignidade do processo histórico, vocês já sanaram os problemas? Podemos ter este livro como uma fonte mais profunda da história do festival?

Carlos Araújo – Esse “um livro sobre os festivais” é: IBOTIRAMA e as Canções de Agosto, obra que escrevemos a seis mãos, depois de dois anos de cansativas entrevistas e pesquisas minuciosas, que se constitui como único registro histórico do FEMPI.

Discordo da afirmação de que haja muitas críticas sobre a “fidedignidade do processo histórico”. Eu jamais recebi uma crítica nesse sentido. Edvaldo Pereira também afirma que não recebeu. Edson Ferreira, idem. Se críticas houve, só podem ter partido de pessoas que nunca leram o livro, pois, em suas próprias páginas, registramos que houve um incêndio em armários da Prefeitura, no início da década de 90, que destruiu toda documentação que havia sobre o Festival. Portanto, registros de algumas edições do festival foram feitas através de depoimentos pessoais. Por conta disso, pode-se ler no livro muitas ressalvas do tipo: “segundo fulano de tal, a música colocada em tal lugar,  no FEMPI tal, foi tal.” Temos consciência de que a obra tem muito de ficção. Mas, qual o livro de história que não contém sua porção ficcional? Afinal,a ficção é o conteúdo básico da psicologia humana. E a história é sua forma de organização e expressão mais fiel. A própria pessoa, para ela mesma, é uma ficção, um ser ficcional.

Policultural – No tocante ao festival de música, qual a participação de que você mais se orgulha? E por quê?

Carlos Araújo – Eu sempre digo que não tenho uma meta na vida, tenho sim uma causa, que é a causa da cultura. Onde estiver alguém batalhando pela cultura e pela educação, pode me requisitar, que, com o maior prazer, sem pestanejar, estou sempre disposto a estar lá para dar a minha modesta parcela de colaboração. Digo isso desde os tempos de juventude.

De resto, mais do que me orgulhar, me sinto realizado de ter participado, mesmo com uma pequena cota de contribuição, de um Festival de importância tal que já conta seus 34 anos de existência.

Policultural – O que você mudaria no modelo de festival de hoje, se tivesse em suas mãos?

Carlos Araújo – Nas últimas edições do FEMPI, alguém já teve a curiosidade de observar o número de jovens na platéia, enquanto artistas cinqüentões desfiavam suas canções de MPB? Eu não só tive essa curiosidade como cheguei a contar: não passavam de cinqüenta! Isso, num universo de quase dez mil estudantes matriculados nas escolas do município.

É por que a música desses senhores não tem qualidade? Não! Mas, a Mídia enfia na mente do jovem de hoje que essa não é sua música.

Na minha modesta opinião, os financiadores do Festival estão empregando esse dinheiro de forma equivocada. Parte dessa verba deveria ser usada na base, ou seja, na escola.

Essa é uma matéria tão complexa, que, infelizmente, não se pode dissecar todo o assunto neste espaço.

Policultural – Muitas pessoas apoiaram e incentivaram a cultura desta cidade. Sei que estou entrevistando uma delas: você. Mas, dentro desse processo cultural até hoje, apesar de termos vários protagonista, quem você elegeria como a personalidade da cultura de Ibotirama?

Carlos Araújo – “Um profetanão é honrado em sua terra e na sua casa”. Esta frase do tempo de Cristo pode, muito bem, ainda hoje, servir para espelhar o panorama cultural de cidades pequenas como Ibotirama. Qual o reconhecimento que a comunidade dá a figuras como Edvaldo Pereira, Carlos Barbosa, Aliomar Pereira, Edson Alves Ferreira e Mestre Curuta? Para citar apenas alguns! Some-se a isso o “ego” natural de alguns “artistas” do lugar, que são incapazes de reconhecer o devido valor de seus próprios pares!

No meu entender, essas e outras circunstâncias impedem que um protagonista se sobressaia aqui e se torne “a” personalidade da cultura de Ibotirama”

Policultural – Algo não foi perguntado nesta entrevista e que você gostaria de colocar por achar relevante ao processo histórico do festival?

Carlos Araújo – Certos ressentimentos me incomodaram nessa minha lida, anos a fio, na feitura dos Festivais. Refiro-me a mágoas infundadas externadas por alguns jovens da segunda geração de concorrentes do FEMPI. Eles alegavam que os “mais velhos” não valorizavam seus trabalhos e não trabalhavam para acontecer uma renovação de concorrentes. Ora, hoje eles são os “mais velhos”, os mais premiados nas últimas edições, no entanto, o aparecimento de novos concorrentes de peso só está minguando.

Volto a repetir: hoje estou mais do que convencido de que a arte só reflete o momento histórico. Mesmo que realizássemos um trabalho esmerado no sentido da renovação de valores, não mudaríamos o cenário musical que aí está.