Noitário I – Crônica notívaga de um escrevinhador curioso

Noitário I – Crônica notívaga de um escrevinhador curioso

Ibotirama e seus umbigos culturais

            O travesseiro tem o condão de me chamar à reflexão. No fim da jornada diária, quando encosto a cabeça nesse companheiro de longa vivência, o pensamento dispara e vêm à tona os mais diversos assuntos despejados pala enxurrada de informações do dia que se finda. Foi assim que me veio a ideia de registrar uma parte dessa meditação notívaga em escritos que vou chamar de “Noitário”. O assunto filtrado por minha mente nessa noite foi a cultura de Ibotirama, por conta da leitura virtual, no “Grupo Festival de Música Popular de Ibotirama e Festival de Poesia”, de acirradíssima discussão sobre os rumos dos festivais de nossa Terra.

Meu labor cotidiano, de longa data na área da cultura – que é minha causa de vida -, fez-me perceber que, no caso de Ibotirama, o grande vilão, causador de todas as suas mazelas, tem um nome próprio: umbigo! O egocentrismo e a vaidade reinam com absoluta soberania nesse campo de atuação em nossa cidade.

Tenho assistido e participado de inúmeros eventos culturais em Ibotirama, ao longo dos anos, que tiveram apresentações artísticas de diversos segmentos culturais do lugar e, invariavelmente, tudo se passa, na maioria das vezes, da seguinte forma: é chamado o primeiro artista a apresentar sua obra. Finda a apresentação, recebe os aplausos, olha pro seu umbigo, reúne a sua trupe e sai de mansinho. Vem o segundo, o terceiro, o quarto… e sempre o procedimento é no mesmo diapasão. O último a mostrar seu trabalho, geralmente, só tem como plateia o seu próprio grupo familiar.

Em 18 de março de 2004, um grupo de meia centena de artistas se reuniu no Colégio Modelo e criou a ACARI – Associação de Cultura e Arte de Ibotirama. A partir da primeira reunião da entidade já começaram as desavenças. Quando um companheiro não comungava das ideias de outro, olhava pro seu umbigo e abandonava o barco. No decorrer de todos esses anos, os mais diversos motivos foram alegados para afastamento da Associação. Atualmente, a ACCARI, que possui um patrimônio de meio milhão de reais, é declarada de utilidade pública, foi premiada pela Secretaria da Cultura do Estado da Bahia, toca a Biblioteca Damião Dantas, com mais de sete mil volumes, é conduzida, a duras penas, mas com entusiasmo, por apenas quatro obstinados associados. Isso sucede porque as questões políticas, religiosas, econômicas e pessoais estão muito acima do amor e do respeito à cultura, no conceito da maioria de nossos artistas.

Observo que a cultura em Ibotirama é praticada em grupos, subgrupos e individualidades estanques, que não se comunicam, não se unem, muito menos comungam dos mesmos ideais. As críticas depreciativas são usadas amiúde no meio cultural de nossa cidade. O elogio e incentivo é algo muito raro nas nossas práticas.

A bem dizer, isso não é uma característica só nossa. Não devemos nos esquecer que nas altas esferas culturais do nosso país esse costume abominável vem de longa data. Conta-se que Raul Pompéia, autor da obra-prima “O Ateneu”, suicidou-se aos 32 anos por conta de artigos de autoria de Olavo Bilac e Luiz Murat, que continham insinuações de que ele seria um homossexual. O mesmo Olavo Bilac desdenhou Augusto dos Anjos, quando da sua morte. Por ironia do destino, este superou aquele e hoje é o poeta mais lido na internet. Na área musical, os próceres da MPB abominavam a Jovem Guarda, os tropicalistas não se davam com os artistas da Bossa Nova.

Verdade seja dita, houve um momento em que toda classe cultural ibotiramense se uniu num só propósito. O milagre se deu em 30 de maio de 2009, com a realização do I Fórum Cultural de Ibotirama, que foi fundo nas questões culturais da cidade; tinha o propósito de se tornar permanente e estava comprometido na organização da Semana da Cidade. Ali foi assinado um “Termo de Compromisso com a Cultura de Ibotirama” para fazer com que o Festival de Música Popular de Ibotirama voltasse a ser digno de sua importância e respeito.

Não se passaram noventa dias e todo trabalho foi por água abaixo. Em agosto, o senhor prefeito municipal, o umbigo-mor, sentiu ferida a sua vaidade e, em seu discurso de encerramento do Festival, desautorizou o I Fórum Cultural de Ibotirama, e terminou sua fala ( em alto e bom som ) com a sentença de morte do movimento dos artistas tão arduamente costurado: “em 2010, eu vou fazer o meu Festival”. E fez.

Isso é para se pensar.

Carlos Araujo

Noite de 10 de novembro de 2012

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About carlosaraujomonteiro

Carlos Araujo nasceu em Ipupiara (antigo Fundão ou Jordão), BA, no dia 22 de junho de 1947. Escreveu, entre outros, “Milagre na Chapada-Roman-ceiro da Chapada Diamantina”, publicado pela Scortecci Editora, em 2005. Em parceria com Lamartine Araujo, publicou também “Ibotirama Capital Céu” (2002). Editou, igualmente, “Ibotirama e as Canções de Agosto” (2003), com parceria de Edson Ferreira e Edvaldo Pereira e patrocínio da Secretaria da Cultura do Estado da Bahia. É um dos criadores do FEMPI - Festival de Música Popular de Ibotirama que, em 2006, completou 30 anos de existência, e também, é membro fundador e primeiro presidente da Associação de Cultura e Arte de Ibotirama – ACARI.

3 responses to “Noitário I – Crônica notívaga de um escrevinhador curioso”

  1. Laécio Beethoven says :

    Carlos, quendo crescer eu quero ser assim. Salve o ventre santo Ipupiara!

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