Noitário II – Crônica notívaga de um escrevinhador curioso

Noitário II – Crônica notívaga de um escrevinhador curioso

A vocação econômica de Ibotirama

            A insonolência tem a faculdade de me levar à reflexão. No fim da jornada diária, o sono não chega, o pensamento entra em ebulição e vêm à tona os mais diversos assuntos despejados pala batelada de informações do dia que se finda. Nessa noite afluiu, mais uma vez, à mente a ideia de registrar no meu “Noitário” o tema da meditação notívaga que versa sobre a “vocação de Ibotirama”. Meu juízo ainda estava poluído pela reverberação do som estrondeante do espocar de foguetes e o barulho, de altíssimos decibéis, dos carros de propaganda da campanha eleitoral recém-finda.

Deitei-me a matutar sobre a decisão que tomei, ainda na minha juventude, de não participar de processo político-eleitoral. Firmei esse propósito ao constatar, desde então, que a democracia passa ao largo nas disputas pelo comando de prefeituras de cidades do porte de Ibotirama. Geralmente, o candidato que sai vitorioso nessas disputas não é o que apresenta as melhores propostas, o mais capaz, o mais honesto, o mais popular, e sim, o que detém o maior número de “votos de favor”.

Desde aquela época, presto a minha modesta contribuição à comunidade no campo da política social, da educação e da cultura (esta última que é a minha causa de vida). Como observador atento, venho percebendo, com pesar, a estagnação da população do Lugar, na casa das duas dezenas de milhares de almas. Praticamente a mesma população do início da década de noventa do século XX. Se somarmos os ibotiramenses residentes em Barreiras, Luiz Eduardo, Salvador e São Paulo, é possível que empate com o número dos moradores atuais da Cidade. Talvez a lei de causa e efeito possa explicar por que Ibotirama perdeu o Campus da Universidade Federal do Oeste da Bahia para Barra e Bom Jesus da Lapa.

A cidade de Barreiras ficou conhecida através da soja; Lapa é vocacionada para a romaria; Itaberaba é a terra do abacaxi; as cidades da Chapada Diamantina exploram o turismo. Muitas cidades do oeste desenvolvem a pecuária. E sempre me vinha a indagação: qual é a vocação econômica de Ibotirama? O que o nosso município produz? Essa pergunta me encafifou desde a época em que me eximi de participar do processo político-eleitoral.

Em certo dia, lá se vão quarenta anos, olhei para a abundância das águas do Velho Chico, levantei as vistas para o Morro Pelado e me veio à mente, de repente, a ideia de que seria possível unir aquelas duas potencialidades na busca de um futuro melhor para os moradores do nosso município. O imaginado era enfiar uma adutora do Rio para o Morro e, de lá, distribuir a água para irrigar a terra. A “vocação de Ibotirama” poderia estar na irrigação. Venho transmitindo essa ideia, teimosamente, ao longo desse tempo, a cada prefeito eleito do município. Jamais fui levado a sério. Desconfio que todos eles nem se lembrem mais de terem ouvido de mim essa conversa, tal a pouca importância que deram ao fato, talvez por eu não ter nenhuma formação no campo da Engenharia.

Isso me remete sempre à teimosia do escritor paulista Monteiro Lobato. Formado advogado, ele se tornou um ícone na defesa da exploração petrolífera no Brasil. Enquanto as autoridades faziam ouvidos de mercador, o escritor batalhou, sem nunca desistir, para mostrar que o país tinha potencial no setor e que o petróleo poderia dar ao povo brasileiro um melhor padrão de vida. Fundou diversas empresas na tentativa de encontrar o “ouro negro”. Em vão. Cunhou a expressão “O petróleo é nosso!” Foi preso pela ditadura do Estado Novo do presidente Getúlio Vargas. E morreu antes de ver seu sonho realizado.

Continuo alimentando a esperança de que algum mandatário da Cidade vá ao Bairro Alto do Cruzeiro, que já imbica no pé do Morro Pelado, olhe para aquela crista e exclame: “a irrigação é nossa!”. E espero que seja bem antes de Ibotirama se transformar numa “Itaoca” e eu num “João Teodoro”, do conto “Um homem de Consciência”, de autoria do escritor Monteiro Lobato.

Isso é para se pensar.

 

Salvador-Ba, noite de 05 de novembro de 2012.

Carlos Araujo

 

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About carlosaraujomonteiro

Carlos Araujo nasceu em Ipupiara (antigo Fundão ou Jordão), BA, no dia 22 de junho de 1947. Escreveu, entre outros, “Milagre na Chapada-Roman-ceiro da Chapada Diamantina”, publicado pela Scortecci Editora, em 2005. Em parceria com Lamartine Araujo, publicou também “Ibotirama Capital Céu” (2002). Editou, igualmente, “Ibotirama e as Canções de Agosto” (2003), com parceria de Edson Ferreira e Edvaldo Pereira e patrocínio da Secretaria da Cultura do Estado da Bahia. É um dos criadores do FEMPI - Festival de Música Popular de Ibotirama que, em 2006, completou 30 anos de existência, e também, é membro fundador e primeiro presidente da Associação de Cultura e Arte de Ibotirama – ACARI.

One response to “Noitário II – Crônica notívaga de um escrevinhador curioso”

  1. Laécio Beethoven says :

    Sendo Carlos Araujo “hors-concours” na cultura de Ibotirama, minhas palavras recheadas de aplausos ainda são nada. Viva a verdade e fim!

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