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Ser Tão Sertão

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Noitário II – Crônica notívaga de um escrevinhador curioso

Noitário II – Crônica notívaga de um escrevinhador curioso

A vocação econômica de Ibotirama

            A insonolência tem a faculdade de me levar à reflexão. No fim da jornada diária, o sono não chega, o pensamento entra em ebulição e vêm à tona os mais diversos assuntos despejados pala batelada de informações do dia que se finda. Nessa noite afluiu, mais uma vez, à mente a ideia de registrar no meu “Noitário” o tema da meditação notívaga que versa sobre a “vocação de Ibotirama”. Meu juízo ainda estava poluído pela reverberação do som estrondeante do espocar de foguetes e o barulho, de altíssimos decibéis, dos carros de propaganda da campanha eleitoral recém-finda.

Deitei-me a matutar sobre a decisão que tomei, ainda na minha juventude, de não participar de processo político-eleitoral. Firmei esse propósito ao constatar, desde então, que a democracia passa ao largo nas disputas pelo comando de prefeituras de cidades do porte de Ibotirama. Geralmente, o candidato que sai vitorioso nessas disputas não é o que apresenta as melhores propostas, o mais capaz, o mais honesto, o mais popular, e sim, o que detém o maior número de “votos de favor”.

Desde aquela época, presto a minha modesta contribuição à comunidade no campo da política social, da educação e da cultura (esta última que é a minha causa de vida). Como observador atento, venho percebendo, com pesar, a estagnação da população do Lugar, na casa das duas dezenas de milhares de almas. Praticamente a mesma população do início da década de noventa do século XX. Se somarmos os ibotiramenses residentes em Barreiras, Luiz Eduardo, Salvador e São Paulo, é possível que empate com o número dos moradores atuais da Cidade. Talvez a lei de causa e efeito possa explicar por que Ibotirama perdeu o Campus da Universidade Federal do Oeste da Bahia para Barra e Bom Jesus da Lapa.

A cidade de Barreiras ficou conhecida através da soja; Lapa é vocacionada para a romaria; Itaberaba é a terra do abacaxi; as cidades da Chapada Diamantina exploram o turismo. Muitas cidades do oeste desenvolvem a pecuária. E sempre me vinha a indagação: qual é a vocação econômica de Ibotirama? O que o nosso município produz? Essa pergunta me encafifou desde a época em que me eximi de participar do processo político-eleitoral.

Em certo dia, lá se vão quarenta anos, olhei para a abundância das águas do Velho Chico, levantei as vistas para o Morro Pelado e me veio à mente, de repente, a ideia de que seria possível unir aquelas duas potencialidades na busca de um futuro melhor para os moradores do nosso município. O imaginado era enfiar uma adutora do Rio para o Morro e, de lá, distribuir a água para irrigar a terra. A “vocação de Ibotirama” poderia estar na irrigação. Venho transmitindo essa ideia, teimosamente, ao longo desse tempo, a cada prefeito eleito do município. Jamais fui levado a sério. Desconfio que todos eles nem se lembrem mais de terem ouvido de mim essa conversa, tal a pouca importância que deram ao fato, talvez por eu não ter nenhuma formação no campo da Engenharia.

Isso me remete sempre à teimosia do escritor paulista Monteiro Lobato. Formado advogado, ele se tornou um ícone na defesa da exploração petrolífera no Brasil. Enquanto as autoridades faziam ouvidos de mercador, o escritor batalhou, sem nunca desistir, para mostrar que o país tinha potencial no setor e que o petróleo poderia dar ao povo brasileiro um melhor padrão de vida. Fundou diversas empresas na tentativa de encontrar o “ouro negro”. Em vão. Cunhou a expressão “O petróleo é nosso!” Foi preso pela ditadura do Estado Novo do presidente Getúlio Vargas. E morreu antes de ver seu sonho realizado.

Continuo alimentando a esperança de que algum mandatário da Cidade vá ao Bairro Alto do Cruzeiro, que já imbica no pé do Morro Pelado, olhe para aquela crista e exclame: “a irrigação é nossa!”. E espero que seja bem antes de Ibotirama se transformar numa “Itaoca” e eu num “João Teodoro”, do conto “Um homem de Consciência”, de autoria do escritor Monteiro Lobato.

Isso é para se pensar.

 

Salvador-Ba, noite de 05 de novembro de 2012.

Carlos Araujo

 

Entrevista para o Blog Policultural

Carlos Araújo

 

 

Policultural – Síntese do seu currículo – participações – (no que se refere à cultura)

Carlos Araújo – De Ipupiara (antigo Fundão ou Jordão), Bahia, nasci em 22.06.1947, fui alfabetizado na Escola Batista de Ipupiara. Em l963, com 16 anos de idade, mudei-me para Ibotirama, nas barrancas do Velho Chico. Formei-me contador. Mediante Concurso Público, tornei-me funcionário do Banco do Brasil, tendo tomado posse na cidade de Pedreiras, no Maranhão, em 1973. Fui professor do ensino médio e do primeiro grau, estando hoje aposentado. Fui um dos criadores do FEMPI – Festival de Música Popular de Ibotirama que, em 2010, completa 34 anos de existência. Sou membro fundador e primeiro presidente da Associação e Colégio de Cultura e Arte de Ibotirama – ACCARI.  Fui um dos criadores e participei também de entidades culturais pioneiras em Ibotirama, como o conjunto musital “Lá Vai Samba”; o Curso Preparatório “Araujo Ribeiro”; a Escola de Datilografia “Araujo Barreto” e a ACRI – Associação Cultural e Recreativa de Ibotirama.

Em parceria com Lamartine Araujo, meu irmão, publiquei o livro IBOTIRAMA CAPITAL CÉU (2002); lancei IBOTIRAMA E AS CANÇÔES DE AGOSTO (2003), em parceria com Edson Ferreira e Edvaldo Pereira, com o patrocínio da Secretaria da Cultura do Estado da Bahia; “Milagre na Chapada-Romanceiro da Chapada Diamantina”, romance, São Paulo, Editora Scortecci, 2005. “O Dono do Santo da Chapada”, romance, São Paulo, Editora Scortecci, 2007 e “O Profeta do Jordão”, romance, São Paulo, Editora Scortecci, 2009.

Policultural – O festival de música de Ibotirama ganhou repercussão nacional e hoje atrai artistas de diversas regiões do Brasil, mas pouca gente sabe como tudo começou. Você poderia fazer uma síntese do primeiro festival, os principais destaques para a época?

Carlos Araújo – Segundo Manoel de Barros “O olho vê, a lembrança revê e a imaginação transvê. É preciso transver o mundo.”

Hoje, ao fazer uma reflexão sobre o evento, com base apenas na minha memória, fico convencido de que o FEMPI foi uma iniciativa que nasceu naturalmente. E concluo que vários fatores convergiram para a realização da primeira edição do festival:

1 – Os anos 60 e 70 foram de profusão de festivais de música Brasil afora, com destaque, principalmente, aos televisivos;

2 – Em 1967, um jovem de Bom Jesus da Lapa chamado Gutemberg Guarabira abiscoitou o primeiro lugar no II FIC – Festival Internacional da Canção da Rede Globo, com a música MARGARIDA, e isso repercutiu sobremaneira em toda região, no meio estudantil;

3 – Fervilhavam as atividades culturais no Grêmio do Colégio Cenecista de Ibotirama;

4 – Já se ouviam as primeiras composições musicais de Sílvio Araujo;

5 – Surgiu em nossa Terra o conjunto “Lá Vai Samba”;

6- Na década de 70, Washington Coutinho já havia participado de festivais em Santos e, de volta a Ibotirama, em 1976, incentivado por seu irmão, Idálito Coutinho, diretor do Colégio Cenecista, esboçou então a criação de um festival interno, o que não foi concretizado. Mas, muitas músicas foram compostas pelos estudantes naquela quadra;

7 – Em consonância com a Prefeitura, foi nesse contexto que, em 1977, se criou uma comissão chamada COF – Comissão Organizadora dos Festejos, para organizar uma Semana da Cultura, para o fim de se comemorar o 19º Aniversário de Ibotirama. E dentro desse projeto, o FEMPI foi inserido.

Policultural – Nesse festival, participaram quantos artistas de outras cidades?

Carlos Araújo – Os concorrentes eram todos compositores de Ibotirama, a exemplo de Natanael Coelho, Juvenal Neves, Silvio Araujo, Lamartine Araujo, Carlos Barbosa, Juarez Paulo, Washington Coutinho, Reginaldo Belo, entre outros.

Policultural – Esse primeiro festival já começou com alguma rivalidade entre grupos ou eles não tinham a noção exata disso tudo?

Carlos Araújo – Havia o que nós poderíamos chamar de rivalidade sadia. Não sei por que, mas aquela “competição” me remetia às rixas antigas entre os meninos da Rua de Baixo com os meninos da Rua de Cima. É tanto que, mesmo sendo eu jurado do FEMPI e tendo dois irmãos em um dos grupos rivais (Silvio Araujo e Lamartine), não se registrava nenhum tipo de reclamação.

Policultural – Os artistas participantes vieram de algum movimento cultural? Havia incentivo das escolas, grupo de teatro ou foram surgindo esporadicamente?

Carlos Araújo – Não havia um movimento cultural organizado. Entretanto, não se podia negar o trabalho artístico/cultural desenvolvido dentro do Colégio Cenecista de Ibotirama, através do Grêmio, com a coordenação do professor Edvaldo Pereira. De lá surgiram muitos concorrentes do I FEMPI. Bem assim do grupo teatral liderado por Aliomar Pereira e do conjunto “Lá Vai Samba”.

Policultural – Qual foi sua participação nesse evento? Quais nomes poderíamos colocar como idealizadores daquele festival?

Carlos Araújo – Podemos dizer que todos nós éramos “homens de sete instrumentos”. No meu caso, sendo eu bancário, ficava incumbido de cuidar da parte burocrática: regulamento, fichas de inscrição, computação das notas, etc… etc… etc.. Nem os próprios concorrentes ficavam de fora na hora do trabalho pesado. Arrumação de cadeiras, palco e instrumentos musicais. Todos pegavam no batente.

Cito algumas pessoas que eram membros da COF – Comissão Organizadora dos Festejos: Aliomar Pereira, Carlos Araujo, Edvaldo Pereira, Nilmar Moreira da Silva, Edson Alves Ferreira, Carlos Barbosa, Washington Coutinho, Juarez Paulo Alves Pereira, Carlos Pereira, Lélia Gomes de Santana, Edson Quinteiro(como prefeito), entre outros.

Creio que muitos  idealizadores do FEMPI não estão fora dos aqui citados.

Policultural – Se o festival nasceu, quem você diria que foi o pai biológico?

Carlos Araújo – Fica praticamente impossível se nomear o dono da idéia de se criar o FEMPI. Que eu saiba, não existe nenhum registro para se comprovar isso. Prefiro me apegar ao dito de que “uma idéia sem ação não é nada”, e reverenciar os nomes dos “realizadores” do festival, já citados.

Policultural – Como você diferencia aquele festival dos que acontecem hoje?

Carlos Araújo – Eu vejo o festival de música como uma grande “mostra” da cultura musical de um povo. Nesse sentido, o FEMPI é um fim e não um meio. O primeiro festival foi uma “mostra” das músicas que se fazia em nossa terra. Portanto, um festival “de Ibotirama”. Hoje apenas cedemos o PALCO para a realização do evento.

Policultural – Qual sua opinião sobre as críticas de não termos mais um festival DE Ibotirama, e sim um festival EM Ibotirama?

Carlos Araújo – Eu fui um dos primeiros a cunhar a expressão: “festival EM Ibotirama”. No início, eu era apenas uma voz solitária a bradar sem eco. Volto a insistir: Nossa Cidade está apenas cedendo o palco para a realização do evento, com os dividendos políticos indo diretamente para as classes dirigentes.

Policultural – Por que Ibotirama não teve uma renovação de nomes na área artística como era esperado? Onde erramos?

Carlos Araújo – Para começar, eu recorro desta feita ao dito de Confúcio: “Se queres prever o futuro, estuda o passado”. Hoje eu revejo, com tranqüilidade, a minha posição de 2003. Como primeiro argumento registro a seguir as músicas que eram tocadas no rádio e que os jovens ouviam, entre os anos de 1977 e 1978: Cálice, Não Existe Pecado ao Sul do Equador, Folhetim, Homenagem ao Malandro (todas de Chico Buarque); Sampa, Terra, Força Estranha (todas de Caetano Veloso); Sossego, de Tim Maia; Bandeira do Divino, de Ivan Lins. Aí eu pergunto: Quais são os ídolos dos jovens, nesse início de século XXI?

Hoje estou mais do que convencido de que a arte só reflete o momento histórico. Mesmo que realizássemos um trabalho esmerado no sentido da renovação de valores, não mudaríamos o cenário musical que aí está.

Policultural – Qual a relevância destes festivais, e suas participações, no trabalho que você desenvolve hoje como escritor?

Carlos Araújo – É de minha natureza estar sempre empenhado nas questões culturais do lugar onde vivo. Portanto, se o FEMPI não me tivesse trazido outras compensações, pelo menos serviu de motivação para dar  o pontapé inicial na carreira deste modesto escrevinhador, com a parceria no livro Ibotirama e as Canções de Agosto.

Policultural – Você acha que o ofício, especificamente de bancário, estava ocultando o artista aí dentro, ou você apenas o guardava, de propósito, para o momento oportuno?

Carlos Araújo – Mergulhei de cabeça no mundo encantado da literatura, desde o momento em que comecei a minha vida escolar. Conheci o Brasil inteiro convivendo com os personagens de Machado de Assis, Aluízio Azevedo, Lima Barreto, Manuel Antonio de Almeida, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Augusto dos Anjos, Érico Veríssimo, Patativa do Assaré, José Lins do Rego, Catulo da Paixão Cearense, entre outros. Visitei o mundo com Emily Brontë, Dostoievski, Eça de Queiroz, Henry Miller e Gustave Flaubert. Fui ao fundo dos mares com Ernest Hemingway e Júlio Verne. Aí fiquei maravilhado ao perceber que fiz tudo isso sem precisar sair da pequena cidade de Ipupiara, onde nasci e de Ibotirama, onde passei a morar depois dos dezesseis anos de idade. Tornei-me, então, um leitor contumaz e estava a um passo de ser mais um escrevinhador. Aquele universo me era familiar.

Mas, só muito mais tarde, depois de aposentado, é que fui convencido, por conhecidos e amigos, de que tinha alguma habilidade (dom) para a escrita ao receber elogios, em “fortuna crítica”, pelos livros que escrevi e apresentei a eles para análise.

Policultural – Você foi um dos autores de um livro sobre os festivais. Há muitas críticas no tocante à fidedignidade do processo histórico, vocês já sanaram os problemas? Podemos ter este livro como uma fonte mais profunda da história do festival?

Carlos Araújo – Esse “um livro sobre os festivais” é: IBOTIRAMA e as Canções de Agosto, obra que escrevemos a seis mãos, depois de dois anos de cansativas entrevistas e pesquisas minuciosas, que se constitui como único registro histórico do FEMPI.

Discordo da afirmação de que haja muitas críticas sobre a “fidedignidade do processo histórico”. Eu jamais recebi uma crítica nesse sentido. Edvaldo Pereira também afirma que não recebeu. Edson Ferreira, idem. Se críticas houve, só podem ter partido de pessoas que nunca leram o livro, pois, em suas próprias páginas, registramos que houve um incêndio em armários da Prefeitura, no início da década de 90, que destruiu toda documentação que havia sobre o Festival. Portanto, registros de algumas edições do festival foram feitas através de depoimentos pessoais. Por conta disso, pode-se ler no livro muitas ressalvas do tipo: “segundo fulano de tal, a música colocada em tal lugar,  no FEMPI tal, foi tal.” Temos consciência de que a obra tem muito de ficção. Mas, qual o livro de história que não contém sua porção ficcional? Afinal,a ficção é o conteúdo básico da psicologia humana. E a história é sua forma de organização e expressão mais fiel. A própria pessoa, para ela mesma, é uma ficção, um ser ficcional.

Policultural – No tocante ao festival de música, qual a participação de que você mais se orgulha? E por quê?

Carlos Araújo – Eu sempre digo que não tenho uma meta na vida, tenho sim uma causa, que é a causa da cultura. Onde estiver alguém batalhando pela cultura e pela educação, pode me requisitar, que, com o maior prazer, sem pestanejar, estou sempre disposto a estar lá para dar a minha modesta parcela de colaboração. Digo isso desde os tempos de juventude.

De resto, mais do que me orgulhar, me sinto realizado de ter participado, mesmo com uma pequena cota de contribuição, de um Festival de importância tal que já conta seus 34 anos de existência.

Policultural – O que você mudaria no modelo de festival de hoje, se tivesse em suas mãos?

Carlos Araújo – Nas últimas edições do FEMPI, alguém já teve a curiosidade de observar o número de jovens na platéia, enquanto artistas cinqüentões desfiavam suas canções de MPB? Eu não só tive essa curiosidade como cheguei a contar: não passavam de cinqüenta! Isso, num universo de quase dez mil estudantes matriculados nas escolas do município.

É por que a música desses senhores não tem qualidade? Não! Mas, a Mídia enfia na mente do jovem de hoje que essa não é sua música.

Na minha modesta opinião, os financiadores do Festival estão empregando esse dinheiro de forma equivocada. Parte dessa verba deveria ser usada na base, ou seja, na escola.

Essa é uma matéria tão complexa, que, infelizmente, não se pode dissecar todo o assunto neste espaço.

Policultural – Muitas pessoas apoiaram e incentivaram a cultura desta cidade. Sei que estou entrevistando uma delas: você. Mas, dentro desse processo cultural até hoje, apesar de termos vários protagonista, quem você elegeria como a personalidade da cultura de Ibotirama?

Carlos Araújo – “Um profetanão é honrado em sua terra e na sua casa”. Esta frase do tempo de Cristo pode, muito bem, ainda hoje, servir para espelhar o panorama cultural de cidades pequenas como Ibotirama. Qual o reconhecimento que a comunidade dá a figuras como Edvaldo Pereira, Carlos Barbosa, Aliomar Pereira, Edson Alves Ferreira e Mestre Curuta? Para citar apenas alguns! Some-se a isso o “ego” natural de alguns “artistas” do lugar, que são incapazes de reconhecer o devido valor de seus próprios pares!

No meu entender, essas e outras circunstâncias impedem que um protagonista se sobressaia aqui e se torne “a” personalidade da cultura de Ibotirama”

Policultural – Algo não foi perguntado nesta entrevista e que você gostaria de colocar por achar relevante ao processo histórico do festival?

Carlos Araújo – Certos ressentimentos me incomodaram nessa minha lida, anos a fio, na feitura dos Festivais. Refiro-me a mágoas infundadas externadas por alguns jovens da segunda geração de concorrentes do FEMPI. Eles alegavam que os “mais velhos” não valorizavam seus trabalhos e não trabalhavam para acontecer uma renovação de concorrentes. Ora, hoje eles são os “mais velhos”, os mais premiados nas últimas edições, no entanto, o aparecimento de novos concorrentes de peso só está minguando.

Volto a repetir: hoje estou mais do que convencido de que a arte só reflete o momento histórico. Mesmo que realizássemos um trabalho esmerado no sentido da renovação de valores, não mudaríamos o cenário musical que aí está.

Entrevista ao Jornal da Mídia


“Um livro é como um filho que a gente traz nas entranhas: ou ele nasce ou nos mata”. A frase, de Osório Alves de Castro, é uma das preferidas do escritor Carlos Araújo para falar de seu ofício. O romancista teve, aliás, que esperar muito para “parir” sua literatura. Pai de três filhas, Araújo se dedicou à vida de bancário e ao sustento da família, por 28 anos, antes de se entregar ao seu mais puro dom: a escrita. “Nesta época em que o sucesso está mais em voga que o talento, se meus escritos despertarem algum interesse no leitor, já me dou por satisfeito”, afirma. No momento lançando seu mais novo romance, “O profeta do Jordão”, Carlos Araújo fala ao Jornal da Mídia sobre sua relação com a literatura.

Jornal da Mídia – Quando começou a escrever? Conte a sua história com a literatura.

Carlos Araujo – Mergulhei de cabeça no mundo encantado da literatura, desde o momento em que comecei a minha vida escolar. Conheci o Brasil inteiro convivendo com os personagens de Machado de Assis, Aluízio Azevedo, Lima Barreto, Manuel Antonio de Almeida, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Augusto dos Anjos, Érico Veríssimo, Patativa do Assaré, José Lins do Rego, Catulo da Paixão Cearense, entre outros. Visitei o mundo com Emily Brontë, Dostoievski, Eça de Queiroz, Henry Miller e Gustave Flaubert. Fui ao fundo dos mares com Ernest Hemingway e Júlio Verne. Aí fiquei maravilhado ao perceber que fiz tudo isso sem precisar sair da pequena cidade de Ipupiara, onde nasci e de Ibotirama, onde passei a morar depois dos dezesseis anos de idade. Tornei-me, então, um leitor contumaz e estava a um passo de ser mais um escrevinhador. Aquele universo me era familiar. Mas só muito mais tarde é que fui convencido, por conhecidos e amigos, de que tinha alguma habilidade (dom) para a escrita ao receber elogios, em “fortuna crítica”, pelos livros que escrevi e apresentei a eles para análise. Não fiz faculdade de letras. Eu me formei contador, quando esse curso fazia parte do ensino médio. Aí fui trabalhar em banco.

JM – Qual a forma literária que prefere ao escrever?

Carlos Araujo – Juntando minha autocrítica às apreciações dos leitores, eu estou convencido de que me saio melhor na prosa (romance). Mas também gosto de cometer os meus modestos poemas populares.

JM – Quais os temas que despertam seu interesse?

Carlos Araujo – Dou inteira razão àqueles que acreditam que a literatura pode ter uma função social. Na verdade, o escritor escreve sobre suas vivências. Sou um homem da Chapada Diamantina, do Nordeste. Essa terra e suas questões sociais são recorrentes nos meus escritos.

JM – Qual o tema central de Milagre na Chapada – Romanceiro da Chapada Diamantina, seu primeiro romance? Onde o senhor buscou inspiração?

Carlos Araujo – Propositalmente botei o nome do personagem central do romance de Noel Serafim (o que renasce das próprias cinzas, como a fênix), pois ele sai do fundo do poço através de um milagre e de seus próprios esforços. Tentei uma inovação neste romance. Fugi do usual foco narrativo de primeira ou terceira pessoas. Neste romance, um personagem apresenta um livro para outro personagem ler, e dessa leitura resulta o desfecho da história. Tudo isso ambientado na Chapada Diamantina, no tempo dos coronéis.

JM – Além de Milagre na Chapada, o senhor tem outros livros publicados? Caso tenha, gostaria que contasse um pouco sobre os temas centrais do(s) seu(s) livro(s) e citasse o(s) título(s), ano(s) de publicação e editora(s).

Carlos Araujo – Em parceria com Lamartine Araujo, meu irmão, publiquei o livro IBOTIRAMA CAPITAL CÉU (2002); lancei IBOTIRAMA E AS CANÇÔES DE AGOSTO (2003), em parceria com Edson Ferreira e Edvaldo Pereira, com o patrocínio da Secretaria da Cultura do Estado da Bahia; “Milagre na Chapada-Romanceiro da Chapada Diamantina”, romance, São Paulo, Editora Scortecci, 2005. “O Dono do Santo da Chapada”, romance, São Paulo, Editora Scortecci, 2007 e “O Profeta do Jordão”, romance, São Paulo, Editora Scortecci, 2009.

No romance, “O Dono do Santo da Chapada”, eu também tentei uma inovação. Saindo do foco narrativo tradicional, deixo que três personagens boêmios e notívagos: Espirro de Grilo, Heitor Fila Grogue e Clodô Sete Manhas conduzam a trama – Que é uma crítica bem humorada à religiosidade do povo nordestino.

Em “O Profeta do Jordão” eu pretendi prestar uma homenagem ao meu amigo Zequinha Barreto, ao abordar a “causa” de sua vida: seu destemor em lutar para ver o Brasil se livrar das garras dos altos coturnos do golpe militar de 1964. Eu também cogitei registrar uma certa força misteriosa que uniu sua vida ao destino do Capitão Carlos Lamarca, a ponto de trazer os dois, sempre unidos, dos grandes centros do sul do país para a tarde do dia 17 de setembro de 1971, em Pintada, município de Ipupiara, e ali, na solidão da caatinga, levar sua “causa”, seu ideal às últimas conseqüências, pagando o preço da ousadia com a própria vida. O livro é ditado por um defunto e vivido pelo próprio autor.

JM – O que o senhor pretende provocar no leitor?

Carlos Araujo – Nesta época em que o sucesso está mais em voga que o talento, se meus escritos despertarem algum interesse no leitor, já me dou por satisfeito. Gostaria que fossem a faísca que faz disparar o pensamento, entretanto, tenho consciência de que o ofício de escritor é hoje em dia uma ocupação de abnegados, de teimosos. Escrevo mais pelo prazer de ver a obra concluída.

JM – Quais os livros e escritores que mais lhe marcaram?

Carlos Araujo – Memórias Póstumas de Brás Cubas, O Triste Fim de Policarpo Quaresma, Memórias de um Sargento de Milícias, São Bernardo, Grande Sertão: Veredas, O Tempo e o Vento, Crime e Castigo, Eu e Outros Poemas, dos escritores anteriormente citados. E mais recentemente “Porto Calendário”, do escritor baiano Osório Alves de Castro.

JM – Qual a importância de se desenvolver o hábito da leitura?

Carlos Araujo – “Ler é para a mente o que o exercício físico é para o corpo”. “Os livros que cativam nossa atenção para o mundo das letras são também formas de despertar nosso espírito para a reflexão”. “Quem lê bons livros está preparado para ler a vida”. Tudo isso já foi dito pelos mestres e eu só tenho que endossar.

JM –  O que o hábito de escrever lhe proporciona?

Carlos Araujo – Como disse o escritor de Santa Maria da Vitória, Osório Alves de Castro, e eu concordo: “Um livro é como um filho que a gente traz nas entranhas: ou ele nasce ou nos mata”. Um romance quando toma forma em nossa mente fica ali, martelando no nosso juízo, de dia e de noite, nos pedindo para ser escrito. Não nos livramos dele até o dia em que decidimos botar no papel. Escrever, pra mim, além de proporcionar um grande prazer, é uma necessidade. Vinha me preparado durante vinte e oito anos para quando me aposentasse do Banco abraçasse certo ofício. E esse ofício era escrever.