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Fortuna Crítica

 

Meu caro Carlos,

Sempre que leio seus escritos literários, ocorre-me o desejo de vê-los dinamizados em suas tramas e vivificados em seus personagens. Isto mesmo: já pensou quão seria impactante e escandalosamente interessante podermos ver (só de imaginar, já vislumbramos as divertidas e inesperadas cores do surreal) o encontro de Zé Bacana e Zé Limeira, cordelizado em seu livro “Ibotirama, Capital Céu”, em nossa barranqueira terra, na linguagem cinematográfica ou teatral vista no “Auto da Compadecida” ou no congênere “Lisbela e o Prisioneiro”?

E o que dizer do “Milagre na Chapada – Romanceiro da Chapada Diamantina” com os embates sanguinolentos, pela disputa do poder, travados entre as forças de Horácio de Matos versus Militão Rodrigues Coelho e jagunços com a capitulação deste? Ou, se quiserem, a sena do bambúrrio de Noel Serafim no bojo de cristal, depois da vida de suor, lágrima e desencanto que pontilhou toda a sua infância de menor renegado?

Neste “O Dono do Santo da Chapada” a história não é diferente… Aliás, aqui os personagens (e as bem urdidas tramas) vicejam e dão um colorido especial e definitivo à obra, como daria a um enredo teatral ou cinematográfico.

Basta que mentalizemos, dentre outras passagens, a representação de cena das lamentações das almas, postas em contrastes com as irreverências dos incorrigíveis, porém, lúcidos, beberrões Espirro, Fila Grogue e Sete Manhas, autênticos alto-falantes da vida alheia, passando pelo reencontro de Dito e Belezinha, depois de removido o abismo que os impediam de sacramentar o recíproco amor quando “… expressões dos rostos faziam lembrar duas fênix renascendo das cinzas”.

Parabéns, Carlos Araujo, elo conjunto (felizmente inacabado) de sua obra, com ênfase a este “O Dono do Santo da Chapada”, onde o que se vê não são apenas demonstrações de conhecimento da alma dos povos das Lavras Diamantinas, mas também de profundo garimpador de sua evolução histórico-cultural, regado a muita inspiração, talento, inventividade. Habent sua fata libelli.*

 

                            Meu abraço,

 

Vitória da Conquista, junho de 2007.

 

Washington Coutinho

 

n.a.* Tradução: Os livros têm seu destino.

n.a.  Washington Coutinho é Juiz de Direito