“Nada substitui o mundo das letras no campo das ideias”

Memórias                                                                                                      Carlos Araujo

 

“Nada substitui o mundo das letras no campo das ideias”

 

O romance literário é um meio de comunicação de sentimentos, ideias e vivências. Essa comunicação literária é essencialmente polissêmica. Isto é, propicia ao leitor várias acepções do seu conteúdo e de sua forma. E esses significados podem ir muito além do que as palavras dizem no texto do romance.

Nesse sentido, a arte não é criada para ser explicada. Todavia, em respeito às circunstâncias, por termos realizado o lançamento do meu segundo romance numa Casa Paroquial, da Igreja Católica, me sinto impelido a tecer alguns comentários sobre “O Dono do Santo da Chapada”, e fazer um desabafo sobre o panorama artístico/cultural nos dias de hoje. De que trata, em última análise, o meu livro.

Faço aqui uma pequena digressão. No meu primeiro romance “Milagre na Chapada – Romanceiro da Chapada Diamantina”, o título já é uma polissemia. Muitos leitores entenderam que o autor é que é um “romanceiro”, ou seja, um contador de histórias. Quando, na verdade, no título do livro, a minha intenção primordial era mesmo fazer uma homenagem à poesia popular. Sendo que ”Romanceiro da Chapada Diamantina” é a história do Meu Verso, que faz parte do conteúdo do livro. No nome do personagem principal “Noel Serafim”, até agora, apenas um leitor aduziu ao autor a intenção de ser “Serafim” o anjo que renasce das cinzas e, “Noel”, além de ser uma alusão ao Natal, é também o nome “leão” escrito ao contrário, em espanhol.

Posto isso, vou direto ao desabafo e aos comentários:

Estamos na era da imagem. Eu diria mais, na era da imagem pronta. Imposta pelas novas tecnologias e pelo discurso midiático, principalmente o televisivo, que faz despertar a importância do discurso sincrético como meio eficiente de persuadir as “massas”.

Ao conjunto desses meios de comunicação de massa (como a televisiva) denomina-se indústria cultural. O conceito de indústria cultural está diretamente relacionado à racionalização das técnicas de padronização e distribuição em massa de mensagens e conteúdos que se tornam, nesse contexto, produtos culturais.

“A industrial cultural – fruto do desenvolvimento tecnológico, associado ao desenvolvimento do capitalismo – se tornou um poderoso instrumento de alienação das “massas”, pois, através de linguagem própria, permite a difusão intensa e extensa da classe dominante. Esse processo de alienação é estruturado pelo contato com mensagens, principalmente com imagens, que falsificam as relações entre homens e natureza, e destes com os interesses das classes dominantes”.

“Dentre os interesses das classes dominantes (elites) devo destacar: criação de necessidades de consumo, produção de comportamentos idênticos e dirigidos, banalização das culturas, alívio das tensões sociais que podem impossibilitar a emergência de movimentos sociais e outras formas de resistência, luta de classes, entre outros”.

Mágica, verdade seja dita, é uma palavra muito adequada à atuação midiática nos nossos dias. As encenações superproduzidas, bem assim, os espetáculos da mídia (televisão, cinema, internet e outros…) garantem sua relação com o comportamento humano. Assegura, também, um fluxo de capital que movimenta a economia global.

“O hiper-real simulado nos fascina porque é o real intensificado na cor, na forma, no tamanho, nas suas propriedades. (…). Com isso, somos levados a exagerar nossas expectativas e modelarmos nossa sensibilidade por imagens sedutoras”.

Essas técnicas altamente sofisticadas são usadas amiúde nos diversos campos da arte e do entretenimento para paralisar o processo mental da “massa”, (pensamento e imaginação) e transformá-la em fiel consumidora, sem nenhuma contestação.

Digo isto, meus caros, para deixar bem evidente que alguém que leu o romance com pouca concentração, ou não, poderá considerar que “O Dono do Santo da Chapada” é uma crítica à Igreja Católica, quando, na verdade, o autor quis expressar efetivamente outro aspecto da questão, para reflexão do leitor. Minha intenção primordial no conteúdo do meu livro foi fazer uma crítica veemente dessas técnicas midiáticas de persuasão já citadas, que estão exatamente na contramão do que deva ser a pregação da Igreja de Roma. Para exemplificar: quando a imagem de Santo Expedito é colocada na Caverna, há todo um espetáculo de encenação muito bem montado, fazendo com que as viúvas da Lamentação das Almas, que estão próximas do local, tenham comportamentos idênticos, influindo decisivamente na opinião da população inteira da Cidade que chega à boca da gruta, momentos depois. Eu poderia citar outras passagens do livro, com esse mesmo propósito, mas aí estaria desvendando todo o enredo do romance. E isto eu deixo a cargo de vocês, os leitores.

Isso é para se pensar!

Ipupiara – Bahia, 22 de junho de 2007.

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